Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Sobre o que pode...


"Tenho, disse..., pouca coisa. Tenho... um décimo de segundo que se mostra... Esperai... há instantes em que todo meu corpo se ilumina... É muito curioso. De repente vejo em mim mesmo... distingo as profundidades das camadas de minha carne; e sinto zonas de dor, anéis, pólos, feixes de dor. Vedes essas figuras vivas? essa geometria do meu sofrimento? Alguns desses clarões parecem-se muito com idéias. Fazem entender -- daqui, até lá... e contudo deixam-me incerto. Incerto não é a palavra... Quando aquilo vai chegar, encontro em mim algo de confuso ou de difuso. Criam-se no meu ser lugares... brumosos, extensões aparecem. Então, procuro na minha memória uma questão, um problema qualquer... Mergulho nele. Conto os grãos de areia e, enquanto os vejo... Minha dor crescente força-me a observá-la. Penso nela! -- Só espero por meu grito,... e assim que o ouvi -- o objeto, o terrível objeto, tornando-se menor, e ainda menor, foge ao meu olhar interior...

"O que pode um homem? Combato tudo -- menos o sofrimento de meu corpo, além de uma certa intensidade. É nesse ponto, contudo, que eu deveria começar. Pois sofrer é dar a algo uma atenção suprema, e eu sou um pouco o homem da atenção... Sabei que eu havia previsto a doença futura. Pensara com precisão naquilo que todos tomam por certo. Acredito que essa visão sobre uma porção evidente do futuro deveria fazer parte da educação. Sim, eu havia previsto o que está começando agora. Era, então, uma idéia como as outras. Assim, pude acompanhá-la."


Paul Valéry -- Trecho do livro "Monsieur Teste"


Já li algumas vezes este livro do Valéry, esse trecho sempre é o que me chama mais atenção. Sempre quis me livrar dele, pois essas palavras me revelam... Revelam algo que insisto em sentir e que nos últimos dias está mais evidente. Sim, eu voltei a sentir novamente, aquele sofrimento delicioso no qual me viciei.

A filosofia que a muitos ensina a viver sempre guiado pela razão me ensinou a confiar em minha intuição, em seguir meus sentimentos mais puros e não negar meus instintos. Mostrou que eu tenho lugar no mundo natural, que sou meu corpo, o que ele sente, o que ele quer. E talvez tenha chegado o momento de expressar o que sou, o que compreendo de mim e o que quero. Mas conheço tão pouco de mim, me entendo nos outros, nos que amo, naqueles que, de repente, aparecem. Eu me encontro no outro, nos outros que são um pouco de mim e percebo que sou um pouco eles e elas.

Voltei a ver o que sinto, saí da apatia a que tinha me entregado. Entre brigas com dualismo e leituras sobre a atribuição de pensamentos em animais não humanos, me vejo. Percebo meus suspiros de desejos reprimidos, de felicidades compartilhadas com meu passado, de previsões do meu futuro. Eu sou essa que escreve, que percebe, sou muito mais que posso falar, muito menos que alguns falam e um pouco a mais que percebem. Eu sou a continuidade do mundo, dos corpos, do que já passou e do que virá.

Imagem: Paul Valéry -- Auto-retrato

Um pequeno agradecimento à Juliana Damázio pelo muito que compartilhou comigo e compartilha até hoje, inclusive o livro...

Sábado, 21 de Junho de 2008

Gato Pensa?

Dizem que gato não pensa
Mas é difícil de crer.
Já que ele também não fala
Como é que se vai saber?

A verdade é que o Gatinho,
Quando mija na almofada,
Vai depressa se esconder:
Sabe que fez coisa errada.

E se a comida está quente,
Ele, antes de comer,
Muito calculadamente,
Toca com a pata pra ver.

Só quando a temperatura
Da comida está normal,
Vem ele e come afinal.

E você pode explicar
Como é que ele sabia
Que ela ia esfriar?


O poema de Ferreira Gullar que foi musicado por Adriana Calcanhoto, revela um tema que tem sido muito debatido na filosofia da mente contemporânea: podemos atribuir crenças, desejos pensamentos e outros estados mentais a animais não humanos?

Imagem: Xuxu, um dos gatos mais inteligentes que já conheci...

Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Alma...


O conceito de alma é geralmente usado em contraposição ao conceito de corpo. Isso surge em Platão, mas só é realmente difundido com a teoria cartesiana. A filosofia contemporânea tem se dedicado a resolver o problema da relação entre alma e corpo com uma pequena mudança no vocabulário, alma é na ciência chamada de mente, e o conceito 'alma' parece sempre estar relacionado a algo teológico. A alternativa à idéia de que alma (ou mente) e corpo são duas coisas distintas, seja por suas substâncias, seja pelas propriedades, encontra-se já em Aristóteles, no tratado De Anima:

Segundo Aristóteles, a alma é o princípio de animação dos seres vivos e então todos os seres vivos possuem alma: homens, cães, laranjeiras e sapos. A alma é o principio de vida, o que proporciona as atividades de cada ser vivo. No entanto, os seres vivos possuem capacidades diferentes e há tipos de almas diferentes para cada capacidade dos seres vivos. As laranjeiras se alimentam e se reproduzem, mas não se movem, por exemplo, elas e as plantas em geral possuem alma vegetativa. Os cães e os sapos além de se alimentarem e reproduzirem, eles têm movimentos, percepção e tato, possuem, como todos os animais, alma sensitiva. O homem compartilha as capacidades dos animais e tem mais uma em especial que é o intelecto. O homem possui uma alma chamada alma racional. Os tipos de almas, portanto, diferem de acordo com as atividades de cada ser vivo que a possui.

A alma se expressa pelas atividades, o crescimento, a reprodução, o movimento, a percepção, a dor, o prazer, o pensar, o compreender. Não é necessário ter todas essas atividades, a alma vegetativa possui apenas crescimento, reprodução e nutrição. Assim a alma é uma forma do corpo vivo, não existe separado do corpo. Aristóteles então distingue forma de matéria. A forma é a atualidade de um corpo; a matéria, uma potencialidade; portanto, a alma é a atualidade de um organismo vivo. Mas essa distinção não é uma distinção dicotômica no mesmo sentido em que é a distinção cartesiana, por exemplo. O organismo é um composto de matéria e forma, o corpo natural que tem vida é substância. O corpo é matéria, a alma, forma, mas a forma e matéria são inseparáveis.

A relação entre a alma e o corpo é explicada por Aristóteles como sendo da mesma forma que a relação entre o olho e a visão. Se o olho fosse um animal, a visão seria sua alma, pois o principio do olho é a visão e a matéria da vista é o olho. Não faz sentido falar que existe visão se não houver um olho que sustente essa visão, da mesma forma, um olho sem visão já não é mais olho, se não que é tão olho quanto o olho de uma estátua, pois perdeu sua função principal.

Assim como o olho que perde a visão, um animal que morre perde seu princípio vital, sua alma ou anima. A alma é o que move o corpo, todo movimento atribuído à alma deve ser atribuído ao corpo. Se a alma pudesse se destacar do corpo e existir sem ele, então poderia voltar e ressuscitar animais ou transformar humanos em zumbis. Mas não se deve entender que alma é corpo, corpo é substrato, matéria, a alma é a forma do ser vivo. O corpo sem alma é a matéria inanimada, mas a alma só existe em um corpo.

O ser animado é a substância composta de forma e matéria, se é animado é dotado de alma e só há alma se houver matéria. Essa visão de Aristóteles tem um sentido animista/vitalista, que se aproxima de teorias biológicas e filosóficas contemporâneas. Essas teorias criticam o dualismo cartesiano e tentam localizar a alma ou a mente e a consciência na natureza. Essas teorias, portanto, preservam a máxima que pode ser extraída da concepção aristotélica: se não há corpo, não há alma.

Imagem: Nina chupando manga.