
"Tenho, disse..., pouca coisa. Tenho... um décimo de segundo que se mostra... Esperai... há instantes em que todo meu corpo se ilumina... É muito curioso. De repente vejo em mim mesmo... distingo as profundidades das camadas de minha carne; e sinto zonas de dor, anéis, pólos, feixes de dor. Vedes essas figuras vivas? essa geometria do meu sofrimento? Alguns desses clarões parecem-se muito com idéias. Fazem entender -- daqui, até lá... e contudo deixam-me incerto. Incerto não é a palavra... Quando aquilo vai chegar, encontro em mim algo de confuso ou de difuso. Criam-se no meu ser lugares... brumosos, extensões aparecem. Então, procuro na minha memória uma questão, um problema qualquer... Mergulho nele. Conto os grãos de areia e, enquanto os vejo... Minha dor crescente força-me a observá-la. Penso nela! -- Só espero por meu grito,... e assim que o ouvi -- o objeto, o terrível objeto, tornando-se menor, e ainda menor, foge ao meu olhar interior...
"O que pode um homem? Combato tudo -- menos o sofrimento de meu corpo, além de uma certa intensidade. É nesse ponto, contudo, que eu deveria começar. Pois sofrer é dar a algo uma atenção suprema, e eu sou um pouco o homem da atenção... Sabei que eu havia previsto a doença futura. Pensara com precisão naquilo que todos tomam por certo. Acredito que essa visão sobre uma porção evidente do futuro deveria fazer parte da educação. Sim, eu havia previsto o que está começando agora. Era, então, uma idéia como as outras. Assim, pude acompanhá-la."
Paul Valéry -- Trecho do livro "Monsieur Teste"
Já li algumas vezes este livro do Valéry, esse trecho sempre é o que me chama mais atenção. Sempre quis me livrar dele, pois essas palavras me revelam... Revelam algo que insisto em sentir e que nos últimos dias está mais evidente. Sim, eu voltei a sentir novamente, aquele sofrimento delicioso no qual me viciei.
A filosofia que a muitos ensina a viver sempre guiado pela razão me ensinou a confiar em minha intuição, em seguir meus sentimentos mais puros e não negar meus instintos. Mostrou que eu tenho lugar no mundo natural, que sou meu corpo, o que ele sente, o que ele quer. E talvez tenha chegado o momento de expressar o que sou, o que compreendo de mim e o que quero. Mas conheço tão pouco de mim, me entendo nos outros, nos que amo, naqueles que, de repente, aparecem. Eu me encontro no outro, nos outros que são um pouco de mim e percebo que sou um pouco eles e elas.
Voltei a ver o que sinto, saí da apatia a que tinha me entregado. Entre brigas com dualismo e leituras sobre a atribuição de pensamentos em animais não humanos, me vejo. Percebo meus suspiros de desejos reprimidos, de felicidades compartilhadas com meu passado, de previsões do meu futuro. Eu sou essa que escreve, que percebe, sou muito mais que posso falar, muito menos que alguns falam e um pouco a mais que percebem. Eu sou a continuidade do mundo, dos corpos, do que já passou e do que virá.
Imagem: Paul Valéry -- Auto-retrato

